Publicado há mais de um mês, o texto Comunicação e Crise – a árvore caiu, fala de problemas na reação à crise instaurada em uma empresa responsável pela poda das árvores em uma cidade após a queda de galho morto sobre um ciclista. O post encerra tratando da necessidade de prevenção e preparo prévio para momentos críticos e conclui: “Mas o que fazer enquanto as árvores ainda estão de pé é tema para outro post”.

Não é possível resumir em um post de blog a série de medidas necessárias para prevenir crises e, quando elas surgem, enfrentá-las da melhor forma: até porque cada crise tem causas, conseqüências, duração e impactos diversificados sobre a reputação da sua marca. Mas também é verdade que a maior parte das crises não surge de uma hora para outra, sem dar qualquer sinal prévio de sua aproximação. Em vez disso, elas são gestadas dentro da organização, geralmente aninhadas sob as asas protetoras da auto-confiança excessiva (a frase adolescente “comigo isso não acontece” não deveria fazer parte do repertório de executivos) e da aceitação de práticas não adequadas na execução de serviços e, principalmente, no atendimento aos clientes.

Infelizmente, é impossível garantir que uma organização jamais atravessará uma crise – pelo contrário: é muito provável que toda marca sofra alguns arranhões durante sua trajetória. Resta, então, buscar meios de prevenir e preparar-se para enfrentar as crises. Uma sugestão bastante simples: tenha um time de crise. Um grupo pequeno, com profissionais de confiança e que tenham acesso ao Presidente deve preocupar-se todos os dias com a prevenção de crises – identificando vulnerabilidades, atuando sobre elas e acompanhando as operações com olhar crítico. Importante acrescentar: a criação desse grupo depois do surgimento da crise nunca será tão eficaz quanto sua existência prévia. Depois do incêndio iniciado, eles atuarão como bombeiros sem o equipamento adequado. Se o time já existisse, o fogo poderia até surgir, mas extintores e mangueiras já estariam nas paredes.

A existência desse grupo provavelmente vai causar atritos internos na organização. Afinal de contas, eles terão a atribuição de identificar problemas e buscar soluções. Ocorre que muitas vezes os problemas são causados pela atuação de pessoas e as soluções exigem ajustes nessa forma de atuação – e nem todos os profissionais estão preparados para ter sua forma de agir questionada ou corrigida. Vale acrescentar ainda que sempre há problemas potencialmente causadores de dor de cabeça que serão identificados, mas não sanados. Cabe ao comando da empresa, nesse caso, garantir a atuação do grupo e evitar que se instaure um clima de caça às bruxas ou disputa entre profissionais dentro da organização, o que poderia pôr a perder o trabalho de combate a ineficiências da empresa, benéfico para a preservação da marca, ativo cada vez mais importante para as organizações. Como já foi dito, um post não é suficiente para esgotar o assunto – pelo contrário, falta muito a ser discutido. Voltamos a tratar de crise em breve.

Sobre o autor:

RogérioRogério Kiefer (@rogeriokiefer) é jornalista e sócio-diretor da All Press Comunicação.

Esqueça os vírus, as bactérias, as doenças infecciosas ou qualquer animal. Quando se trata de degradar ou destruir um homem, nenhum ser é capaz de superar outro homem. Os exemplos são variados e estão nos livros de história, nas revistas e no telejornal da noite. Mas esse poder destrutivo toma ares de tragédia quando transformado em ação de grupos políticos, como ocorreu em guerras na África, na Iugoslávia e – mais conhecido dos tristes exemplos – durante o nazismo. A Biblioteca All Press da semana trata de um livro fenomenal: É isto um homem?
Escrito pelo italiano Primo Levi entre os anos de 1945 e 1947, o texto é desolador da primeira a última página. No início, um poema com o mesmo título do livro dá o tom do que virá pela frente:

Vocês que vivem seguros
Em suas cálidas casas,
Vocês que, voltando à noite,
Encontram comida quente e rostos amigos,
Pensem bem se isto é um homem
Que trabalha no meio do barro, que não conhece paz,
Que luta por um pedaço de pão,
Que morre por um sim ou por um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome,
Sem mais força para lembra,
Vazios os olhos, frio o ventre,
Como um sapo no inverno.
Pensem que isto aconteceu:
Eu lhes mando estas palavras.
Gravem-nas em seus corações,
Estando em casa, andando na rua,
Ao deitar, ao levantar;
Repitam-nas a seus filhos.
Ou, senão, desmorone-se a sua casa,
A doença os torne inválidos,
Os seus filhos virem o rosto para não vê-los.

A partir daí, a obra narra a prisão de Levi e um grupo de prisioneiros que pretendiam resistir ao fascismo italiano, sua deportação para o campo de concentração na Polônia e os terrores vividos até a libertação com a chegada dos russos. Sem identidade, chamados apenas pelo número tatuado em seus braços, milhares de homens e mulheres são humilhados, ameaçados e subjugados. Pior: em condições extremas (frio, fome, privação do sono e de descanso e trabalho em condições sub-humanas) parecem perder a consciência da própria humanidade, afinal os vultos sem cor e voz que andam de um lado para o outro na narrativa de Levi são mortos-vivos apenas à espera do tiro, da câmara de gás ou da forca.
A vulgaridade da morte é assustadora. Levi conta um episódio das chamadas seleções, quando um oficial da SS definia quem iria morrer em poucos dias na câmara de gás ou viver mais algum tempo.

A cena começa com os prisioneiros trancados em um pequeno ambiente. Eles devem sair por uma porta e entrar em outro espaço por outra, pouco distante da primeira:

“Cada um de nós, ao sair, nu, da peça nos ar frio de outubro, deve passar correndo entre uma porta e outra, na frente dos três (os responsáveis por definir quem vive ou morre); entregar a ficha ao SS e entrar pela outra porta, a do dormitório. O SS, na fração de segundo entre as duas sucessivas passagens, com uma olhadela de frente e outra de costas, julga a sorte de cada um e por sua vez entrega a ficha ao homem à sua direita ou à sua esquerda – e isso é a vida ou a morte de cada um de nós. Em três ou quatro minutos, um alojamento de 200 homens está “feito” e, à tarde, todo o Campo de 12 mil homens”. Primo Levi foi deportado com 650 judeus. Desse grupo, três sobreviveram.

Todo esse horror, no entanto, não mudou algo fundamental: Primo Levi, morto em 1987, não era o espectro no qual se transformou durante os anos no Campo. Ele era um homem – e um homem que assumiu postura admirável. Ele faz a denúncia do próprio sofrimento, do sadismo dos homens que tinham algum poder no Campo, mas não escreve um manifesto à vingança ou à intolerância. Em vez disso, faz algo maior – indo além até da ótima literatura – e revela características da alma humana que talvez preferíssemos ignorar.

Vale citar o que ele mesmo escreve no prefácio: “Ele (o livro) não foi escrito para fazer novas denúncias; poderá, antes, fornecer documentos para um sereno estudo de certos aspectos da alma humana. Muitos, pessoas ou povos, podem chegar a pensar, conscientemente ou não, que “cada estrangeiro é um inimigo”. Em geral, essa convicção jaz no fundo das almas como uma infecção latente; manifesta-se apenas em ações esporádicas e não coordenadas; não fica na origem de um sistema de pensamento. Quando isso acontece, porém, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, como último elo da corrente, está o Campo de Extermínio”. Ou seja: é preciso lembrar sempre para que nunca se repita.

 

Sobre o autor:

RogérioRogério Kiefer ( @rogeriokiefer) é jornalista e sócio-diretor da All Press Comunicação.

9789722040846 prothPhilip Roth está aposentado, já passou dos 80 e ainda não recebeu o maior prêmio da literatura mundial. A Academia Sueca que corrija logo esse deslize e evite uma grande injustiça, já que o Nobel não é entregue in memorian.

O norte americano tem uma longa lista de obras que devem ser lidas e que podem aparecer em qualquer estante que reúna os grandes livros das últimas décadas. Patrimônio (autobiográfico, que trata da morte do pai do autor, vítima de um tumor não maligno no cérebro), Nêmesis (declarado como último livro de sua extensa criação), Complexo de Portnoy, O Professor do Desejo, A Marca Humana, Fantasma Sai da Sombra, Adeus Columbus (esse do início da carreira), entre outros, compõem uma galeria de personagens e histórias riquíssima. Há traços em comum entre vários livros da lista: personagens sexualmente desajustados, desalento com relação ao futuro do homem, inadequação do indivíduo aos padrões sociais estabelecidos – tudo em meio a um cenário delimitado e desenhado a partir da matriz da cultura dos judeus que vivem nos Estados Unidos.

O humor é outro ponto forte do autor. Não há piadas ou trechos escritos para arrancar gargalhadas. A graça está na ironia e no ridículo de várias situações. Um dos personagens mais célebres do autor – o perturbado Portnoy, “vítima” de uma mãe judia estereotipada ao máximo – conta ao psiquiatra: “Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao final das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha quando eu chegava, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela. Além do mais, era sempre um alívio não surpreendê-la entre uma e outra transformação – muito embora eu jamais deixasse de tentar; eu sabia que meu pai e minha irmã nem faziam ideia da natureza real de minha mãe, e o peso da traição que, imaginava eu, recairia sobre meus ombros se alguma vez a pegasse desprevenida seria demais para mim, aos cinco ano de idade.”

Outro personagem célebre de Roth é o escritor Nathan Zuckerman, presente em vários de seus livros. Dois deles estão na Biblioteca All Press. O Avesso da Vida impressiona pela estrutura complexa. Para narrar a trajetória de dois irmãos que se tornam algo como os melhores inimigos um do outro, o autor escreve capítulos com histórias que se contradizem, misturam épocas e cenários e confundem o leitor. Outro – o Fantasma sai de Cena – é perturbador ao revelar de forma direta a decadência – principalmente física, mas também psicológica – que muitas vezes impede que a velhice seja o que os otimistas (ou ingênuos, ou mal intencionados) chamam de “melhor idade”. Apaixonado por uma mulher décadas mais jovem, o escritor sofre não apenas com a impotência sexual, mas também com a incontinência urinária causada pela cirurgia de retirada de um câncer de próstata e com atotal inadequação ao ambiente que o rodeia. Há muito mais a elogiar em Philip Roth. Mas o melhor é ler suas obras e ficar na torcida para que os suecos não percam tempo e entreguem logo ao bom velinho o merecido prêmio.

Na Biblioteca All Press você pode emprestar livros sem muita burocracia. Basta enviar um email, consultar a disponibilidade e passar no nosso escritório para pegar o livro.

Sobre o autor:

RogérioRogério Kiefer ( @rogeriokiefer) é jornalista e sócio-diretor da All Press Comunicação.

 

 

 

Por Quem os Sinos Dobram é uma obra-prima da literatura mundial. Depois de abrir as mais de 500 páginas do livro, que narra poucos dias na vida de grupo de guerrilheiros em uma montanha espanhola em tempos de guerra civil, o leitor não quer desgrudar do texto. A expectativa em torno do futuro do grupo e do “herói” Robert Jordan é construída e alimentada com maestria por Hemingway, que em paralelo mostra ainda o potencial da guerra e do poder como elementos de degradação do indivíduo.

Assim como toda literatura de qualidade, o livro abre discussões variadas e levanta mais perguntas do que respostas – além de não se render à solução fácil de confortar o leitor. Aqui, porém, não se vai tratar disso – mas de outra característica da obra de Hemingway essencial para quem busca efetividade na comunicação. Hemingway foi gênio em sua simplicidade.  Ele não precisou fazer floreios, usar palavras desconhecidas do leitor ou construções incompreensíveis para conquistar um espaço entre os maiores. Além da força das histórias que contava, ele soube como poucos usar a simplicidade em favor da forma. “Ninguém estava vivo no topo da colina, exceto o rapaz Joaquin, inconsciente debaixo do corpo de Ignácio.  Joaquín sangrava pelo nariz e pelos ouvidos. Ele não tinha visto nada acontecer e não sentiu nada, já que estivera bem no epicentro do turbilhão de bombas, e sua respiração fora arrancada de seu corpo quando a bomba estourou junto a ele; o tenente Berrendo fez o sinal da cruz e, apontando para a nuca dele, disparou rápido e delicadamente, se é que uma ação destas pode ser delicada, da mesma forma que El Sordo fuzilou o cavalo ferido”.

A comunicação só ocorre quando o receptor compreende a mensagem do emissor. Equivoca-se, portanto, quem opta por usar palavras complicadas ou maneirismos linguísticos (como os termos próprios de uma profissão específica ou as muletas de termos em inglês) quando tenta passar uma mensagem. A melhor mensagem, nos mostra o exemplo de Hemingway, é aquela simples o bastante para ser compreendida e forte o suficiente para deixar uma marca no ouvinte/leitor.

 

RogérioSobre o autor: Rogério Kiefer ( @rogeriokiefer) é jornalista e sócio-diretor da All Press Comunicação.