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Quem está contando sua história para a IA?

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Por Déborah Almada

Esta semana, perguntei a uma inteligência artificial sobre a polêmica entre o Itaú e o Metrópoles, iniciada depois que o banco lançou o site Factópoles para contestar uma série de reportagens do portal sobre cobranças de seguros e outros serviços a clientes. A resposta reuniu tanto a cobertura do jornal quanto os argumentos publicados pelo próprio banco. Não era apenas um resumo do caso, mas um sinal claro de que a reputação passou a disputar espaço também nas respostas da inteligência artificial.

Mais que uma provocação, ao lançar o Factópoles, o Itaú criou um ambiente próprio, organizado e estruturado para apresentar sua versão dos fatos. Conteúdos produzidos dessa forma tendem a ser localizados e utilizados pelos chamados motores generativos, estratégia que o mercado passou a chamar de GEO, sigla em inglês para otimização de conteúdo voltada às inteligências artificiais.

Mas a tecnologia resolve apenas parte do problema, porque publicar uma versão dos fatos não significa, automaticamente, fortalecer uma reputação. Dependendo da estratégia adotada, pode produzir o efeito contrário.

O Metrópoles reagiu ao lançamento do site, contestou os argumentos do banco e cobrou comprovação documental das alegações. E desta forma, um espaço criado para transmitir transparência passou a integrar a própria disputa pública. Tudo isso fica registrado, indexado e disponível para futuras consultas feitas por pessoas ou por inteligências artificiais.

Esse caso mostra uma nova dimensão da comunicação e gestão de crises.

Durante muito tempo, administrar uma crise significava responder rapidamente à imprensa, publicar uma nota oficial e tentar reduzir os danos da exposição. Agora existe uma segunda responsabilidade: decidir quais registros daquela crise merecem permanecer disponíveis por anos e quais apenas prolongam um conflito que poderia desaparecer com o tempo.

A inteligência artificial organiza, relaciona e recupera informações. Ela não avalia riscos jurídicos, não mede o impacto de um tom excessivamente agressivo nem decide se vale a pena transformar um embate circunstancial em um documento permanente da memória digital. Essa continua sendo uma decisão humana, e cada vez mais estratégica.

Para empresas, órgãos públicos e agentes políticos, o desafio deixou de ser apenas produzir conteúdo institucional. O desafio agora também é decidir que memória desejam construir. Porque aquilo que hoje é publicado para responder a uma crise pode ser exatamente o material utilizado amanhã por uma inteligência artificial para explicar quem você é.

Durante décadas, dizia-se que quem contava a primeira versão dos fatos saía na frente. Na era da inteligência artificial, a pergunta mudou. Não basta saber quem falou primeiro. É preciso saber qual versão continuará disponível quando a IA for consultada. Afinal, se você não ajudar a construir essa memória, alguém fará isso por você.