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A memória do eleitor

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Déborah Almada

A política brasileira costuma apostar em uma ideia simples: o eleitor tem memória curta. Por isso, alianças improváveis surgem, antigos adversários dividem palanque e lideranças passam a disputar espaços que, até pouco tempo atrás, rejeitavam.

Dentro da política, esses movimentos costumam ser tratados como parte natural da estratégia eleitoral. Partidos ampliam alianças, reorganizam seus campos de disputa e tentam aumentar sua competitividade. O mineiro Magalhães Pinto comparou a política às nuvens: “Você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou.”

O eleitor, porém, não observa esse processo apenas pela lógica da estratégia.

Ao longo do tempo, cada liderança constrói uma trajetória pública feita de discursos, posições assumidas, disputas travadas e alianças celebradas. É desse histórico que nasce a percepção do eleitor sobre quem representa o quê no debate político.

Memória política, em outras palavras, é reputação.

Quando uma articulação eleitoral entra em choque com essa memória, surge um ruído que é preciso administrar. Entram em campo os especialistas que buscam convencer a opinião pública de que os ganhos superam as contradições das alianças.

No extremo, quando esse estranhamento não é superado, o eleitor identifica incoerência.

Esse tipo de tensão não é novidade.

Em 1996, na disputa pela prefeitura de Florianópolis, o empresário Vinícius Lummertz apresentou uma campanha fortemente crítica aos chamados “políticos profissionais”. O discurso encontrou eco naquele momento. Mas adversários exploraram o fato de que sua própria trajetória já incluía passagens pela política partidária. O debate da campanha acabou deslocado para a questão da coerência.

Reposicionamentos são possíveis, claro. Mudanças de posição fazem parte da vida pública e o eleitor costuma compreender essas mudanças quando elas vêm acompanhadas de uma explicação política clara.

O que costuma gerar desconfiança é quando a estratégia tenta substituir a trajetória.

Campanhas conseguem reorganizar discursos em poucos meses.

A reputação política, não.

Ela se forma ao longo de anos e é justamente essa memória acumulada que o eleitor usa para interpretar cada novo movimento do jogo político.

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