Você está em:
Gay Talese, Ruy Castro e a impossibilidade da admiração incondicional

volta
  • compartilhe

Por Rogério Kiefer

O experimento é infalível. Vença a resistência natural e dedique algum tempo a descobrir pormenores da história daquela pessoa desprezível, capaz de deixá-lo irritado mesmo à distância. Em algumas horas – às vezes em minutos – o sentimento de puro desprezo estará conspurcado. Ainda vão persistir ódios acumulados, raiva ou ranço. Mas nada será como antes.

A descoberta de que o pilantra é filho de um pai agressivo; de que o arrogante perdeu parentes queridos de forma trágica; de que o boçal tem medo do chefe abrem caminhos sem volta. Todo mundo merece pelo menos um pouco de consideração.

Corrijo: todo mundo é gente demais. A maior parte das pessoas merece pelo menos um pouco de consideração.

A admiração sem ressalvas também tem lá seus riscos – e pode sofrer abalos quando o fã escarafuncha a vida do ídolo.

Bartleby e Eu é daqueles livros imperdíveis de Gay Talese. Autor do perfil dos perfis (Sinatra está resfriado), da maior “biografia” de um jornal já escrita (O Reino e o Poder, sobre o New York Times) e de outras tantas reportagens e livros que tornam inescapável o caminho da estima, o mestre do novo jornalismo mostra mais uma vez a elegância característica do seu texto e a perspicácia para achar – e contar – ótimas histórias.

Ao explicar sua opção preferencial pelos anônimos (construtores de pontes, porteiros, profissionais de casas de massagem, entre outros) Talese traz dicas valiosas para qualquer repórter: tenha interesse genuíno pelas histórias das pessoas; respeite as fontes; fale com os personagens cara a cara, com atenção e sem pressa; “ouça os descontentes”, entre outros.

O livro também traz “causos” dos bastidores da reportagem que está há décadas associada ao seu nome – o sensacional perfil de Frank Sinatra para a revista Esquire – e narra em pormenores a história do Dr. Bartha. Talese leu matérias de jornal sobre o desfecho da história de Bartha, que preferiu morrer ao explodir o prédio em que vivia à alternativa de pagar US$ 4 milhões no processo de divórcio, e percebeu que o caso poderia render mais do que as manchetes esquecidas em poucos dias. Pegou os blocos de anotação que ele mesmo produz a partir de embalagens de camisa e foi a campo. Falou com amigos e conhecidos do seu protagonista e recuperou a curiosa história de uma família que teve de fugir da perseguição nazista aos judeus e do regime comunista na Romênia; reconstruir a vida no estrangeiro, e se adaptar da melhor forma a uma realidade desafiadora. Em vez de um amalucado que destrói um prédio centenário só para não quitar débitos com a ex-mulher, Bartha surge como um médico competente, um homem complexo, com acertos e erros como todos nós.

Outra das histórias de Bartleby e Eu mostra que Talese também pode ter lá seus deslizes. Nos anos 80, já consagrado, ele recebeu uma carta de Gerald Foos, dono de um motel no interior dos Estados Unidos. O interlocutor havia instalado grades de ventilação no teto de algumas suítes, espionava casais de clientes e anotava o que via, o que incluiu um crime. Talese entrevistou o empresário e passou alguns dias ele próprio espionando clientes. Desistiu da publicação porque o protagonista Foos, temeroso de que a história terminasse em cadeia, não aceitou que seu nome fosse divulgado. Talese retomou a história, transformada em livro, apenas duas décadas mais tarde.

A publicação causou polêmica. Em parte pela descoberta de que algumas informações passadas por Foos eram mentirosas (e Talese havia caído na esparrela da fonte). Em parte porque o autor escolheu não revelar os crimes dos quais tomou conhecimento ainda nos anos 80 e deixou para fazer isso apenas décadas depois, quando seu personagem concordou em aparecer.

Talese tem suas próprias convicções sobre relacionamento com fontes, fez mais no jornalismo do que jamais farei e particularmente não sei como agiria na mesma situação. Então me abstenho de críticas. Mas é inegável que os fatos ligados ao caso do voyer arranham sua imagem e merecem reflexão dos jornalistas.

O episódio também fez lembrar de outro herói que sai chamuscado dos bastidores de uma de suas publicações. Ruy Castro, maior autor de biografias do País, errou ao acreditar na história contada por uma de suas fontes no livro Ela é Carioca. Disse seu interlocutor que a avó do Gerald Thomas teria proximidade com Hitler e Goebbels, informação que foi parar em um verbete do livro, mas era equivocada. À Folha, que acompanhou o assunto, o diretor teatral lembrou que a avó era uma judia alemã e “teve de deixar tudo na Alemanha quando veio para o Brasil”. Pior: ela “perdeu oito membros da família – entre eles sua irmã, Olga, no campo de extermínio de Auschwitz”. Alvo da ira de Thomas, coberto de razão, diga-se de passagem, Castro providenciou, junto com a editora, a supressão do trecho na segunda edição.

Como diria o homem chavão, personagem de livro e site criado por uns amigos e especializado em repetir obviedades, erros acontecem. No caso de talentos como Talese e Castro, há sempre um extra de boa vontade para compreendê-los. Ainda mais porque equívocos de gente talentosa e de sucesso servem de argumento de defesa para nós, os de poucas luzes, quando cometemos alguma barbeiragem.